Google Um dia no pregão da BMF - Trade número 2 Bilhões

Um dia no pregão da BMF – Trade número 2 Bilhões

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Para a BM&F, 16 de abril de 2007 não foi um dia qualquer. Muito ao contrário. Nessa segunda-feira de outono, o pregão da Bolsa registrou o contrato de nº 2.000.000.000. Aproximadamente um mês antes, a Resenha BM&F me convidou para escrever um ensaio sobre esse evento tão especial.

Na ocasião do convite, ainda não era possível se prever com exatidão quando o contrato dois bilhões iria ser fechado. Mas, à medida em que o tempo foi passando, estimou-se que o “dois bi” cairia ou na sexta-feira 13 de abril ou na segunda, 16. Numa hipótese mais remota, na terça, 17.

Para alegria dos supersticiosos, logo o ritmo crescente do volume de negócios desfez a possibilidade da sexta-feira 13 e limitou as opções para segunda ou terça. Finalmente, na tarde do dia 13 se pôde estimar que o trade “dois bilhões” seria fechado entre as 11 e as 14 horas da segunda-feira 16.

Viajei para São Paulo no domingo, 15 de abril. Como os pregões viva-voz abrem às 10 da manhã, minha idéia era chegar na Bolsa às oito e meia (hora na qual são abertas as portas do recinto de negociações) de segunda-feira, para estar lá quando começassem a surgir os operadores e auxiliares de pregão. Eu queria ser o primeiro a chegar.

A segunda-feira amanheceu nublada, com temperatura de 20º. Acordei cedo, tomei café-da-manhã no hotel, peguei um táxi para a Bolsa e entrei no pregão exatamente às 8 e meia. Fui surpreendido ao ver que quase uma centena de profissionais entrou junto comigo.

Carlos Alberto Ribeiro Silva, 33 anos, casado, um filho, auxiliar de pregão, já estava na Bolsa desde às 06h40m. Ocupou o primeiro lugar na fila junto à porta de entrada. E lá ficou esperando a abertura. Não a abertura do pregão, como seria de se supor, mas a abertura das portas. A razão pela qual madrugou foi a de guardar lugar no degrau mais baixo (e mais ao centro) do pit (roda com degraus decrescentes e concêntricos) de dólar futuro para um scalper (scalpers, para os não íntimos, são os floor traders que trabalham por conta própria).

Cinco minutos depois de eu ter entrado no pregão, os melhores lugares no centro da roda de dólar já estavam ocupados. Isso, faltando hora e meia para a abertura. Alguns auxiliares penduravam, com barbantes, garrafas d’água nos corrimãos do pit, mostrando que a vigília seria longa.

No saguão de negociações (trading floor), existem três pits maiores nos quais são negociados dólar futuro, DI (taxas de juro) e Ibovespa. Em diversos pits menores, negocia-se dólar para pronta entrega (dólar pronto), café, boi gordo e outros produtos. Atualmente o pregão mais ativo é o de dólar e, em 16 de abril, o dólar mais negociado era o vencimento maio de 2007, justamente no pit onde Carlos Alberto se instalou às 08h30m, após quase duas horas de espera lá fora.

O primeiro operador a chegar no pregão foi Eduardo Andrade Santana, que todos ali conhecem como Salsicha. Eduardo, 41 anos, é casado e tem um filho. Mora em São Bernardo do Campo, de onde saiu pouco antes das sete horas. Chegou na BM&F às 07h40m. Salsicha (espero que ele permita, também a mim, a intimidade) opera dólar pronto para a corretora Renascença.

Enquanto eu aguardava a abertura do viva-voz, fiquei conversando com os profissionais, fazendo meu dever de casa para esta matéria. Aprendi que os operadores usam camisa social com gravata (sem paletó). Os auxiliares, camisa social, gravata e um colete vermelho. Já os que trabalham no mercado de dólar para pronta entrega (tanto operadores como auxiliares) usam coletes verdes. Trata-se de um produto novo (o dólar pronto) e a BM&F quer fazê-lo sobressair-se entre tantos outros ativos vestindo seus protagonistas de maneira diferente.

Em todos os pits, os operadores que trabalham para corretoras usam crachás amarelos. Os scalpers, crachás azuis.

Quando os mercados eletrônicos abriram, às 9 horas, os degraus mais baixos dos pits importantes do pregão viva-voz já estavam ocupados por auxiliares, guardando para seu traders as posições físicas mais estratégicas.

Pouco antes das 10 da manhã o enorme mostrador de um relógio luminoso digital mostrou a contagem regressiva dos segundos que faltavam para a abertura.

Cinco, quatro, três, dois, um, zero: os negócios que, até então, se faziam por computadores, passaram a ser fechados literalmente no grito, numa liturgia que existe desde o século XIII, quando operadores começaram a negociar commodities dessa maneira tão democrática quanto espalhafatosa na bolsa do condado de Bruges, hoje parte da Bélgica.

O pregão viva-voz de uma bolsa de público pregão era e continua sendo o tumulto mais organizado que existe na face da terra. Ao testemunhar sua abertura mais uma vez, lembrei-me de um texto que escrevi para meu livro Os Mercadores da Noite, lançado pela própria BM&F em 1996.

“Exatamente nessa hora, quando soava a campainha, todos pareciam enlouquecer. Aquelas mesmas pessoas, minutos antes comentando futebol, passavam a gritar e a gesticular furiosamente uns com os outros. Nenhum leigo, ali presente como visitante, compreendia como os operadores se faziam entender em meio a tais tumulto e gritaria.”

Quando redigi o texto acima, eu retratava o pregão da CBOT (Chicago Board of Trade), no qual negociei durante muitos anos. Agora, em abril de 2007, a cena e a liturgia são praticamente as mesmas no recinto de negociação da BM&F.

O operador faz a anotação da compra ou da venda e a entrega para um auxiliar. Cabe ao auxiliar do vendedor preencher o boleto e procurar o auxiliar do comprador. Este, depois de conferir as informações, rubrica o papelucho, sacramentando o negócio. O boleto, agora assinado pelas duas partes, é lançado em um escaninho que os profissionais do pregão da BM&F conhecem como tobogã, cuja bocarra engole, em média, um milhão e meio de contratos todos os dias.

Por coincidência, nesse dia em que estive no pregão, para testemunhar o contrato “dois bi”, o Ibovespa alcançou seu maior valor em todos os tempos (até então, bem entendido, pois a marca já foi superada), o risco Brasil atingiu o menor nível da história e o dólar só não bateu um recorde de baixa de seis anos porque o Banco Central interveio, comprando a moeda norte-americana no mercado futuro (através de contratos de swap).

Sete mil, setecentos e quarenta e cinco dias antes, quando a BM&F abriu suas portas pela primeira vez, ninguém jamais poderia imaginar tal cenário. Era uma época de inflação, de choques heterodoxos, uma era em que o dólar subia sempre, restando aos traders brasileiros estimar a velocidade da alta.

A BM&F não foi apenas testemunha dessa mudança. Foi um dos seus principais instrumentos, uma de suas pedras angulares.

No dia do “dois bilhões”, Devanir Aparecido Rezende (o Deva), casado, duas filhas (31 e 26 anos) era o operador mais antigo no recinto de negociações. Em sua bagagem, em seus 36 anos de estrada, foi auxiliar e operador na Bovespa, negociou boi e ouro na Bolsa de Mercadorias de São Paulo (Bolsinha) e finalmente veio para a BM&F, onde está há 17 anos. Seu crachá mostra que ele trabalha para o Santander.

Marcos Tadeu, o Marcão, tem 35 anos de idade, um a menos que o Deva tem de pregão. Marcos fez o sinal da cruz quando entrou no recinto, exatamente às 09h21m. Eu perguntei por quê?

─ Para ter um bom dia de negociação.

Marcão opera para o UBS Pactual.

José Reinaldo Oliveira é um trader que consegue pensar e agir em dois planos. Enquanto conversa comigo sobre meus livros e sobre meus artigos na Resenha BM&F, vai passando os dados do pregão de Ibovespa para a mesa da Indusval.

─ Comprador a zero, zero. Vendedor a dez. Negócios a dez. Comprador a dez ─ ele recita, quase que maquinalmente, uma ladainha que me é tão familiar.

Antes de descer os degraus da roda, Marvio Sandes Cardoso, 35 anos, operador de Ibovespa e DI, faz alongamento e exercício de vibração das cordas vocais. José Roberto Tavares Longui, 37, alonga as pernas apoiando os pés no corrimão do pit.

Quem acha que controlador de vôo é uma profissão estressante devia fazer uma visita ao pregão da BM&F. Tal como nas torres dos aeroportos e centros de controle do espaço aéreo, nos pits de dólar, Ibovespa e DI momentos de calmaria se alternam com instantes da mais pura loucura. Só que, na bolsa, a tensão é muito maior. Nas horas mais críticas, os floor traders se parecem com jogadores de futebol na grande área, durante a cobrança de um escanteio no ultimo minuto do segundo tempo de um jogo empatado.

Como simples espectador do pregão, sem nenhum interesse no subir e descer das cotações, pude observar os detalhes. E que detalhes. No pit de DI, por exemplo, dois traders se digladiavam. Com comportamentos totalmente distintos. Como se a profissão de um nada tivesse a ver com a do outro. Um deles parecia um aristocrata comprando obras de arte num leilão da Sotheby’s, em Londres. Seu contendor se assemelhava a um político italiano, discursando na Camera dei Deputati, em Roma..

─ Vendo a quarenta ─ rugiu o “italiano”.

─ São meus ─ balbuciou o “fidalgo”, reforçando as palavras com um movimento quase imperceptível dos dedos da mão direita.

Questão de estilo.

O negócio 2.000.000.000 surgiu às 12h16m. Foi anunciado logo depois pelo diretor geral da BM&F, Edemir Pinto, e pelo diretor de pregão, José Carlos Branco. O anúncio foi seguido de uma chuva de papéis prateados que desceu do teto do recinto. A operação envolveu 1.000 contratos de Ibovespa, vencimento abril de 2007, a 48.720. Comprador: Amauri Simões de Almeida Junior, 40 anos, casado, um filho. Vendedor: Fernando Jorge Carneiro Filho, 38 anos, casado, duas filhas. Amauri e Fernando, é claro, não faziam a menor idéia de estar negociando o contrato dois bilhões.

Fernando acordou às sete da manhã, chegou na Bolsa às 08h30m para ler o jornal. Tomou café na lanchonete do térreo. Ao meio-dia e quinze fez uma oferta firme de três minutos dos tais mil contratos, oferta essa apregoada pelo fiscal do pit. Amauri, que também acordou às sete, chegou na BM&F às 09h30m. Sua mulher, Ana, levou-o de carro para o trabalho. Amauri estava comprando o lote que viesse, quando surgiu o “firme” de Fernando. Fechou na hora.

Amauri opera para a corretora Ágora. Fernando, para o Banco Fator.

Até o momento em que o Edemir anunciou o negócio, eu era, como já disse, apenas um frio observador dos acontecimentos. Mas, ao saber que o Fator tinha sido um dos intervenientes da operação 2.000.000.000, foi impossível não me emocionar.

Ano de 1967: acreditem ou não, eu já estava no mercado havia quase uma década. Foi quando o grupo do qual eu fazia parte decidiu fundar uma corretora. Coube a mim escolher o nome: Fator. Coube a mim ser o operador de pregão.

Na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, onde eu, extremamente nervoso, estreei no outono de 1967, tinha apenas um pit, que os jornais da época chamavam de corbeille e que nós, traders de pregão, chamávamos de roda mesmo.

Antes da estréia como floor trader no Rio, eu havia operado em mesas de câmbio e de títulos de renda fixa, tendo começado em Belo Horizonte no longínquo ano de 1958. Juscelino Kubitschek era o presidente, o Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez e a indústria automobilística nacional ensaiava seus passos.

Voltando aos anos 1960, mais tarde a corbeille carioca se desfez e deu lugar a um amplo recinto com postos de negociação, onde operei durante o grande bull market de 1971. Continuei seguindo minha estrada, cujo percurso passou por mesas de open market e pelos mercados futuros de Chicago e Nova York. “Treidei” ao longo de 37 anos, até abandonar os números pelas letras em abril de 1995.

Em 1977 vendi minha parte na Fator para um grupo carioca. A este, sucederam-se outros grupos e a empresa que fundei em 1967 tornou-se um banco paulista. Que vendeu o lote dois bilhões.

Minha filha costuma dizer que eu não conheço História.

─ Você “viu” a História acontecer ─ ela argumenta.

Às vezes, como sucedeu no dia  16 de abril deste ano, a História me pega de surpresa. Fui fazer um ensaio jornalístico e acabei sendo envolvido por ele.

Por Ivan Sant’Anna

Comentário Scalper Trader:

” O pregão viva-voz acabou… mas seus ensinamentos continuam prevalecendo… a maioria dos Operadores Autônomos e dos Operadores Especiais (Scalpers) conheciam os outros operadores, por qual corretora eles operam e para quem eles operam… e essa informação era muito relevante na hora de tomada de decisão…Todos sabiam que tal operador opera pelo Bradesco e ficava ligado com o Tesoureiro… Todos sabiam que tal operador fica na Capital e ficava ligado com um estrangeiro… no Eletrônico os nomes mudaram, as pessoas mudaram mas ainda existem os ‘Marcões’ que operam pelo Pactual, os ‘Fernandos’ pela Agora… a Leitura do Fluxo de Ordens e a Leitura dos Players (Tape Reading) ainda é e sempre será muito presente e importante… habilidade esta que poucos traders conhecem ou desenvolvem…”

Para relembrar:

 

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8 Comments to Um dia no pregão da BMF – Trade número 2 Bilhões

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  1. Marcos Caetano

    Meus caros,
    boa noite!!!
    Gostaria de saber o nome de literatura que fala sobre tape reading.
    forte abraço

  2. O Ivan é uma lenda!!

    Mercadores da Noite, se não é o melhor livro que li na vida, está entre os três.
    Já dei mais de 5 exemplares de presente de aniversário. Um deles, por sinal, a meu pai. Psicólogo e farmacêutico, que nada (ou quase nada) entende de mercado financeiro, mas que já leu o romance duas vezes.
    E sempre que comento alguma operação com ele, ele lembra: ‘ estás a cada dia mais perto de Julius Clarence’.

    Ivan, se leres esse singelo comentário, saiba que aqui fala um grande fã teu.

    Abraço

  3. Muito bom artigo, é incrível como conseguem entender a leitura de uma forma tão tranquila como dito no artigo “tumulto mais organizado que existe na face da terra.”

    Parabéns!

  4. Roney Albert Barbosa

    Eu estava lá !!!!! Operava forte !!!! Acho que foi o neg. com o Jobinho (131) com a (188) Link a boleta premiada do negócio abraços a todos e foi legal recordar !!!!