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Pare, olhe, escute o mercado…

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Cena de rotina: Na mesa de operações de uma instituição financeira qualquer, um trader vaticina para um colega à sua frente:

- O dólar vai cair abaixo de dois reais.

E completa, sentencioso, fisionomia severa, quem sabe querendo exibir, com contornos dramatúrgicos, um convicção da qual ele mesmo tem dúvidas:

- É uma questão de tempo, essa queda do dólar. Sou capaz de apostar até a minha última ficha nisso.

Como que provando que sem divergências não haveria mercado, o outro contesta:

- Nada, meu. Isso aqui é o fundo do poço. Ponto de compra. A barbada das barbadas. Bater em cachorro morto. Tirar bala de criança. O trade da década – exagera. – O dólar vai subir pra dois e cinqüenta – prossegue. – Seu cacife mais o dobro – faz menção de tirar do bolso uma ficha imaginária.

Esses lados opostos, situação e oposição, touros e ursos, são a própria essência do mercado. Pois se todos achassem que a cotação do dólar iria cair abaixo de dois reais, ou subir para o nível de dois e meio, o preço simplesmente já estaria lá.

Note-se que os profissionais de mercado são pagos para estimar altas e baixas, continuação ou reversão de tendências, acumulação, exaustão, derivas, aumento ou queda de volatilidade. Só que, se querem ser bem-sucedidos na profissão, é melhor que não tentem adivinhar quando, em que nível, e sob quais condições, o mercado vai mudar de rumo. Por favor, esperem que o próprio mercado lhes diga isso.

No final de 1987, o inglês Ted Arnold, analista de metais da Merrill Lynch, fez uma palestra na BM&F, a qual estive presente. E me lembro muito bem de que, em certo momento, ele disse:

- Don’t put a price on it (não ponha um preço nele). And if you must put a price, don’t put a date (e se tiver de pôr um preço, não ponha uma data).

O certo é esperar que o próprio mercado nos diga se já caiu o suficiente, se já atingiu o fundo do poço, ou o topo da colina. E, não raro, ele faz isso claramente.

Quando os preços revertem um movimento de alta ou de baixa, isso fica registrado nos gráficos. E, mais do que nos gráficos, no comportamento do próprio mercado. Se ele começa a responder com altas a notícias baixistas, isso é sinal de que a alta vai continuar. Se responde com baixas a fundamentos teoricamente altistas, é sinal de fraqueza.

Exemplificando: se acontece uma geada e o café não sobe, não pense duas vezes: venda café. Se o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos anuncia uma safra recorde de soja, e os preços, mesmo assim, continuam subindo, compre soja. Provavelmente a China está batendo recordes de consumo, ou coisa parecida, e o mercado vai subir mais.

Na dúvida, pare, olhe, escute o que o movimento das cotações está sussurrando em seu ouvido.

Um bom exemplo dessas aparentes divergências entre fatos e preços ocorreu em 1989, tendo como palco o mercado internacional de petróleo.

Pouco antes das tropas iraquianas invadirem o Kuwait, ataque esse desfechado no dia 2 de agosto daquele ano, o preço do barril começou a subir. Subiu inexplicavelmente, pois os fundamentos conhecidos se mostravam baixistas. Reunidos em Genebra, nos últimos dias de julho, os principais países produtores de óleo não conseguiram chegar a um acordo com relação a cortes na produção. Mesmo assim os preços pularam de 17 para 20 dólares, como se vaticinassem:

- Vai acontecer alguma coisa.

E não é que aconteceu. Antes que o mundo se desse conta, em questão de dias as tropas iraquianas subjugaram o Kuwait. Se a situação permanecesse, o Iraque se tornaria o maior produtor mundial, sem mencionar a ameaça que representaria para a Arábia Saudita, ali do lado.

A resposta não se fez esperar. Formou-se uma coalizão de 34 países – díspares como o Senegal, o Reino Unido e a Argentina – liderada pelos Estados Unidos, para libertar o Kuwait.

Nas primeiras horas da manhã de uma quinta-feira, dia 17 de janeiro de 1991, irrompeu a Guerra do Golfo, a enésima motivada pelo petróleo. Com isso, os preços do barril de óleo cru obviamente dispararam. Certo?

Errado.

Após bater em 42 dólares, durante alguns minutos, nos mercados do Extremo Oriente – na Europa e nos Estados Unidos as bolsas já haviam fechado -, os preços entraram em colapso. Os ursos atacaram com violência poucas vezes vista. Nos primeiros dias do conflito, o petróleo caiu 50%, dos tais 42 para 21 dólares. A guerra mal começara e o mercado já sabia seu resultado.

A história é pródiga em exemplos como esse. O crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque, ocorrido na terça-feira 29 de outubro de 1929, por exemplo, antecipou, em apenas uma sessão do pregão, uma década inteira de depressão econômica. E não o contrário, como um desavisado poderia supor: a depressão provocando lentamente a queda da bolsa.

Sugiro então a você, caro amigo trader leitor, que deixe de pensar em ser um novo Nostradamus. Em vez de sair espalhando por aí “Vai subir para tanto, vai cair até tal nível”, concentre-se na dança dos números em seus terminais e pare, olhe, escute…

Por Ivan Sant’Anna

Comentário Scalper Trader:

“A maior máxima do mercado: Siga-me… Aprenda a escutar o mercado… Para de adivinhar e foque em reagir, esse é o começo do sucesso…”

 

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4 Comments to Pare, olhe, escute o mercado…

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  1. Edson Ottenio

    Boa lição (ação e reação, simples assim), pena de quem estava comprado na época. Provavelmente ate stop pulou.

  2. Daniel Almeida

    Espetacular. Simples e objetivo. Muitas vezes os candidatos a traders focam exatamente nisso, em tentar prever o futuro, quando a resposta sempre esteve dentro de si, em como vamos reagir a situação mostrada pelo mercado. Excelente artigo! Obrigado por compartilhar!

  3. Eleonan Santos

    Tudo tem sua hora,
    verdade, temos que aprender a olhar as horas no relogio,
    antis de olhar para o SOL.