Google O mercado está errado!

O mercado está errado!

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Certa ocasião, num final de manhã de sexta-feira, em meados dos anos 70, o então ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen anunciou, durante a cerimônia de encerramento de um Congresso de Sociedades Corretoras, em Salvador, que, a partir da segunda-feira próxima, o PIS e o PASEP iriam aplicar parte de seus recursos em ações. O investimento seria feito através das Bolsas de Valores.

A medida anunciada pelo ministro era uma antiga reivindicação do mercado acionário. Foi portanto recebida com grande entusiasmo e muitos aplausos. E, por que não dizer, houve até um certo vexame quando diversos corretores presentes à cerimônia saíram correndo do auditório em busca das cabines telefônicas do saguão do hotel onde se realizava o Congresso – os celulares, é claro, ainda não existiam – para transmitir a boa notícia às suas respectivas mesas de operação.

Na época eu era operador de pregão na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Encontrava-me trabalhando no floor quando chegou a notícia. E me surpreendi ao ver os preços da maioria das ações desabar nos poucos minutos que faltavam para o encerramento da seção e dos negócios da semana.

Ao meu lado, um colega floor trader, que, ao longo daquela semana, não fizera outra coisa senão comprar, gemeu agoniado, em sofrido desalento:

- O mercado está errado! O mercado está errado! O mercado está errado! – ele se repetia como um papagaio ensinado.

Durante a semana seguinte – apesar da notícia da entrada do dinheiro do PIS e do PASEP nas bolsas ter sido amplamente divulgada nos jornais do fim de semana – o mercado continuou caindo. E caiu por meses a fio, num demorado inverno dos ursos.

Pouco mais de uma década e meia mais tarde, quando eu já operava nos mercados internacionais de futuros, vim a conhecer um analista de futuros da Merrill Lynch, um inglês de nome Edwin (Ted) Arnold, de quem me tornei amigo e admirador. Era raro o dia em que não conversávamos pelos menos uma vez ao telefone. Fui diversas vezes a Londres, vê-lo. Em duas ou três ocasiões ele veio ao Brasil, onde passamos alguns fins de semana juntos em Búzios. Nas longas conversas que travávamos, eu não me cansava de aprender com seus ensinamentos valiosos.

Uma das coisas que Arnold costumava dizer vinha de encontro ao appalling choro do meu colega operador de pregão naquela sexta-feira dos anos 70.

- O mercado não erra nunca – Ted Arnold explicava, em seu sotaque londrino, entre uma e outra pitada de cockney (gíria do East End de Londres). – Aliás – prosseguia -, mais do que analisar os fundamentos do mercado, um trader precisa observar o mercado em si. E logo irá observar que o verdadeiro bull market é aquele que ignora as notícias baixistas e só obedece às altistas. Em contrapartida – concluía – num bear market legítimo, as notícias altistas são simplesmente ignoradas.

Michael Marcus, um dos traders mais bem sucedidos dos Estados Unidos nos anos 80 – Marcus obteve, num período de dez anos, uma valorização de inacreditáveis 250.000% em sua carteira especulativa -, costumava dizer que um bull market, além de ignorar solenemente as notícias baixistas, se caracteriza por responder, com extremo vigor, às altistas.

Portanto, caro amigo trader leitor, seja você touro ou urso, que tal começar a perscrutar, com lentes microscópicas, como sua posição está reagindo às notícias.

Há algum tempo atrás, por ocasião da renúncia do presidente argentino Fernando de La Rúa, e da eclosão dos momentos mais críticos da crise política e econômica que atingiu o país vizinho, a cada notícia e imagem chegadas de Buenos Aires, no Brasil o mercado de Real respondia subindo. Sim. Subindo. Respondia de modo bullish às notícias bearish. O touro se esquivava com facilidade dos golpes do urso e desferia violentas chifradas no inimigo, uma vez que todas as notícias ruins já se encontravam embutidas nas cotações.

Quem precisara, ou quisera, vender o real e comprar dólares, já o fizera. Por outro lado, quem não comprara o real, ou vendera dólares, por medo mais do que compreensível da crise argentina, perdeu o receio e se apressou em fazer suas posições. Assim como o fizeram os traders técnicos, profissionais disciplinados cuja característica principal é a de observar o mercado e não os seus fundamentos.

Neste ano de 2002 teremos eleições presidenciais no Brasil. Mais do que a situação internacional, o pleito será o fundamento principal que afetará os mercados brasileiros de ações, câmbio e taxas de juro.

Que tal, prezado trader, passar a observar cuidadosamente como o mercado irá reagir ao vaivém, ao sobe-e-desce, aos números não raro erráticos das pesquisas eleitorais. Como se comportará a cada declaração dos candidatos à presidência da República.

Se o touro começar a se fortalecer em terreno aparentemente propício ao urso, ignore o terreno e acompanhe o touro. Se, ao contrário, o urso se beneficiar de um cenário peculiar do touro, vista sua pele e role na neve com ele.

Lembre-se de que o mercado jamais erra. Erramos nós, pobres traders mortais.

Por Ivan Sant’Anna

Comentário Scalper Trader:

” Independente da nossa opinião, o mercado sempre está certo… o mercado sempre prevalece… Seja humilde e paciente… Fique atento a todos os sinais e simplesmente reaja.”

 

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3 Comments to O mercado está errado!

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  1. Um dia vou operar como voces, ja estou programando para depois do carnaval. Pois hoje so uso analise tecnica

    e sinto uma facilidade enorme operar o dolar em relaçao ao indice. Gostaria de saber porque voces tambem preferem o dolar.

    Att Carlos

  2. Osmar Filho

    Belíssimo artigo!

    Mostra como devemos nos comportar diante das notícias e não criar viés!
    Temos que ler o mercado! Ahhh se eu tivesse lido este artigo antes. Teria economizado alguns reais!!!!