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1987 – O Crash no mercado

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Todo trader que se preze tem a expectativa de um dia usufruir, lançando na batalha do mercado todo seu poder de fogo, um forte movimento de mercado, seja como touro, cavalgando uma alta, ou como urso, surfando nas ondas de uma baixa.

Se esse movimento se der num curto espaço de tempo, tanto melhor.

Alguns ativos oferecem essas oportunidades num piscar de olhos. É só ver nos gráficos o que aconteceu com o café, em 1994, quando o preço da libra-peso, no mercado futuro de Nova York, decolou de US$0,90 para US$2,80, após forte geada ocorrida nas principais regiões cafeeiras do Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Como um bom exemplo de baixa, lembro-me da guerra de preços ocorrida no mercado de petróleo, no primeiro semestre de 1986, que fez as cotações do barril despencarem de US$32,00 para US$9,00 na Nymex. Qualquer trader que tenha se aproveitado de um desses dois eventos, dele jamais se esquecerá.

Mas nas últimas décadas nenhum movimento de mercado foi tão impressionante quanto a queda da Bolsa de Valores de Nova York no dia 19 de outubro de 1987, o dia do Crash, que ficou conhecido como Segunda-feira Negra. O clichê é apropriado. Naquela segunda o Índice Dow Jones perdeu um terço de seu valor. Sim. Um terço. O Standard & Poor’s 500 Stock Index, por sua vez, caiu de 277.00 (fechamento da sexta-feira, dia 16 de outubro) para 180.00, um colapso de 35%, para nenhum urso botar defeito.

Curiosamente, essa queda eu tive a felicidade (ou, como se verá mais adiante, a infelicidade) de prever.

Na ocasião, além de operar nos mercados futuros de Nova York e Chicago, eu escrevia uma carta mensal que era distribuída entre meus clientes brasileiros.

No final de setembro de 1987 eu lera um artigo do economista John Kenneth Galbraith, comparando a euforia que reinava no mercado de ações de Nova York com diversas bolhas especulativas (assunto predileto de Galbraith) ocorridas ao longo da História, inclusive a alta, e subsequente crash, de outubro de 1929.

Nesse artigo Galbraith estabelecia diversos paralelos entre 29 e 97. Nos dias que precederam os dois crashes, por exemplo, o espaço destinado a anúncios de underwrites no Wall Street Journal estabelecia novos recordes, com destaques (em 87) para os lançamentos de junk bonds, febre da época, tão bem retratada por Tom Wolfe em A Fogueira das Vaidades (Editora Rocco, 1990) – do original The Bonfire of the Vanities.

Havia diversas razões para se esperar um fim súbito (e trágico para os touros) do bull market das bolsas de valores. A Guerra Irã-Iraque se alastrava, com bombardeios diários de refinarias, portos e petroleiros no Golfo Pérsico. A cotação do dólar frente ao iene e ao marco alemão caía desde fevereiro de 1985. Havia um cheiro azedo de medo no ar. E a bolsa subindo.

Coerente com minha opinião, eu comprara, para mim e para os clientes, vários lotes de puts out-of-the-money do S&P 500, vencimento em setembro. Para meu desalento, expiraram valendo pó, pois a bolsa continuava subindo, ignorando solenemente os fundamentos bearish e dando total importância às raras notícias bullish.

No início de outubro o mercado de opções passou a negociar principalmente os puts para dezembro. Que, por causa do time value, eram muito caros.

Na sexta-feira, 16 de outubro, as bolsas de valores começaram a desmoronar. Nesse dia o Iraque bombardeou o terminal iraniano de petróleo na ilha de Kharg, o secretário do Tesouro James Baker deu declarações pessimistas a respeito do dólar e o FED precisou intervir no mercado de câmbio para evitar que o dólar soçobrasse.

A essa altura eu já me dispusera a comprar, pelos preços salgados vigentes em outubro, os puts de dezembro. Só que, da quinta-feira, dia 15, para sexta-feira, dia 16, esses puts haviam triplicado de preço, por causa da baixa e do aumento da volatilidade. E simplesmente não tive coragem de adquiri-los. Fui acometido de ignóbil paralisia, embora fosse evidente que o mercado estava virando.

Após o fechamento do dia 16, as analises dos gráficos do Dow e do S&PP indicavam a iminência de um crash, que deveria se materializar na segunda-feira. Tragédia anunciada. O mercado rompera suportes importantes nos gráficos diários, semanais e mensais. Todos os grafistas passaram a ser ursos de carteirinha.

Quanto a mim, apesar das semanas que passara proclamando aos quatro ventos, e escrevendo, que a bolsa iria sofrer uma queda igual a de 1929, não possuía um put sequer. Nem eu nem meus clientes. Todo mundo zerado.

E foi assim, zerado, pasmo, sem exagero apopléctico, que testemunhei a segunda maior queda da história da Bolsa de Nova York. Os “meus” puts out-of-the-money foram negociados por 50 vezes o preço de sexta-feira e por 150 vezes o de quinta. Se ri naquele dia, foi de nervoso.

Para minha sorte (caso contrário acho que nunca teria me recuperado daquela decepção), no ano seguinte, 1988, eu peguei, na veia, uma alta da soja provocada por uma seca no Meio-oeste americano. Ganhei como touro aquilo que não consegui como urso.

Por isso, caro amigo trader leitor, se um dia acontecer isso com você (for infiel à sua própria opinião) não se deixe levar pelo desespero.

Diz um ditado dos jogadores de futebol que só perde pênaltis quem os cobra. Dizem os aviadores que só erra um pouso quem pilota. Só perde nos futuros, e nas opções, quem tem a coragem de abraçar uma carreira tão desafiante como a de trader de mercado.

A vantagem da batalha do mercado é que não termina nunca. E sempre haverá um dia depois do outro. No dia seguinte, aconteça o que acontecer, o mercado voltará a se abrir. Touros e ursos estarão lá se defrontando. Independentemente dos reveses, das feridas abertas, das frustrações, das lembranças amargas.

Pois sempre haverá novas oportunidades, tantas quanto a nossa mente possa conceber. Talvez o trade de sua vida esteja no mercado de feijão vermelho, em Tóquio, ou no de óleo de canola, no Canadá. Quem sabe no dólar da Nova Zelândia. Ou, talvez, nas taxas de juro do México. Pode ser também no óleo de palmeira da Malásia. Ou, em nossa própria casa, no Ibovespa da BM&F. Esse leque é o grande encanto da profissão de trader. Nunca se sabe, a não ser a posteriori, onde está o Canaã.

Cada trade, mesmo aquele que deixamos escapar por entre os dedos, encerra uma lição. E se há uma coisa que aprendi no crash de 87, foi a respeitar minha própria opinião, por mais errada que ela possa parecer aos outros. Pois, se eu mesmo não o fizer, quem o fará?

Por Ivan Sant’Anna

Comentário Scalper Trader:

“Se você tem uma opinião a respeito de uma operação, faça o que tem em mente, não deixe pra depois, respeite sua opinião. Use stop e seja responsável! Precisamos nos manter vivos no mercado todos os dias. Perdeu uma oportunidade hoje? Com certeza outras oportunidades virão amanhã! Perdeu um momento de crise? Crises vão e vem com o passar dos anos, prepare-se e esteja alerta para a próxima que vier.”

 

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